Certos livros são marcantes, mas existe um especial em minha vida. Foi por volta de 1991 que surgiu o meu interesse pela carreira médica, e isso se deu após a leitura do brilhante The Physician (O Clínico), erroneamente em nosso país traduzido para o físico.

O livro conta a jornada de vida de um personagem fictício (Robert J Cole) e a sua busca pela melhor formação médica da época, já que era dotado de uma forte vocação e um excepcional poder de clarividência apresentado durante a sua performance clínica.

Após um grande período de aprendizado acompanhando um barbeiro cirurgião (uma espécie de médico em seu tempo), pelo território da Inglaterra medieval, Robert herda o seu ofício e chega à pérsia (hoje Irã) em busca das escolas de medicina, pois a medicina no Oriente se encontrava mais evoluída. Por essas regiões, era possível encontrar grandes tutores e autores como Vicena (980 – 1037), que assinava o grande tratado de medicina da época, o célebre Cânone da Medicina.

Parte da história da medicina é esplendorosamente visitada nesse livro, que nos apresenta a figura do barbeiro cirurgião: barbeiros, andarilhos não letrados (como a maioria do povo) e que por necessidade passaram atuar como curandeiros, pois a prática médica na época limitava-se aos monges em seus mosteiros, pouco acessível à população.

A cirurgia, antes realizada por monges, foi proibida após o Concílio de Tours (1163). Houve então a transferência desse conhecimento para esses profissionais populares que adicionavam em suas práticas as artes circenses, malabares e tratamentos médicos com elixires, balsamos, álcool e misticismo.

Uma curiosidade é que abrir o corpo humano era, nessa época, vedado pela igreja católica com punição prevista pela inquisição, sendo então toda a noção de anatomia humana baseada no modelo suíno (Galeno 129-217 d. C).

Algumas décadas se passaram e eu nunca esqueci desse livro, pois a vocação se mostrou necessária para a árdua vida de estudos e trabalho na medicina, mas retribuindo com uma imensa satisfação: a de exercer a medicina.

Recomendo fortemente a leitura dessa obra prima de Noah Gordon, mas alerto para que não vejam o filme antes, pois o livro, como na maioria das vezes, é muito superior.


0 comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Open chat
Precisa de ajuda?